Palm Beach, 8 de Novembro. Já passava das dez da noite e eu estava pronta para dormir quando vieram as notificações no Facebook, gente a dizer que o mar estava aceso. Podia ter ficado na cama. Mas há coisas que não voltam se a gente espera o amanhecer, então troquei de roupa e conduzi até à praia no escuro.
Já na descida, vi as ondas a quebrar e a luz a aparecer com elas. Um azul intenso, eléctrico, que parecia vir de dentro da água e não de cima dela, num contraste absoluto com a noite fria e sem lua. O brilho é da Noctiluca scintillans, um dinoflagelado microscópico que de dia pode passar como uma mancha avermelhada na superfície e à noite acende quando perturbado. Cada onda que arrebenta agita milhões dessas células, e elas respondem combinando luciferina com oxigénio, transformando o próprio susto em luz. É um mecanismo de defesa que evoluiu para assustar o que as ameaça, e que naquela praia virou a coisa mais bonita que vi no ano.
Fiquei horas. Toquei os pés na água e o movimento desenhava luz, escrevia formas que se apagavam no instante seguinte. Depois sentei num banco e só observei, as ondas a bater nas pedras e a revelar o azul a cada impacto. Às vezes a intensidade era tanta que faltava o ar, beleza no limite do que o corpo aguenta sem nome para dar.
Sozinha, no escuro, diante daquilo, pensei que sabia a química exacta do que estava a ver e, ainda assim, nada disso explicava por que não conseguia ir embora.