Entre 1990 e 2023, a ilha perdeu cerca de 6 hectares de vegetação densa, uma perda líquida de quase um quinto do que existia. O número vem do Google Earth Engine, validado por NDVI e por uma classificação supervisionada que isolou o mangue do resto. Mas o dado mais revelador não é o total. É onde a perda aconteceu: nas bordas costeiras, enquanto o interior ganhava vegetação. Mangue nativo a recuar de um lado, verde urbano a avançar do outro. O ecossistema não desapareceu apenas, foi substituído.

E ainda assim há uma camada inteira da perda que o satélite não alcança. Onde havia mangue havia também o barulho das marisqueiras, as conversas ao amanhecer, o cheiro a marisco, o som das raízes a mover a lama na maré. A degradação de um ecossistema nunca é só ecológica. É também sonora, social, feita das vidas que dependiam daquele verde agora ausente do mapa.

Penso nisso quando olho para os índices de vegetação no ecrã. O NDVI mede o que reflecte a luz, e fá-lo muito bem. O que ficou em silêncio depois de o mangue recuar é exactamente aquilo que a ciência que quero fazer ainda precisa de aprender a medir.